Catherine

Apesar da abrangência dos temas dos videojogos actuais a verdade é que este tipo de entretenimento ainda carece de alguma maturidade. Tendo isto em conta é fácil perceber a apreensão da indústria quando a Atlus anunciou Catherine, um jogo que na altura prometia conteúdo com um forte cariz sexual e que alimentou os receios de que os videojogos pudessem voltar a ser alvo das críticas dos media. Todavia, uma vez lançado e terminada a campanha, é impossível não pensar que tais receios são completamente infundados.

Inicialmente julgado como um role-playing game, Catherine acabou por revelar-se como um puzzle game, uma mudança de género que acabou por surpreender visto que se trata da mesma equipa responsável pela série Persona, uma das séries mais populares entre os fãs de RPG’s dos últimos anos. Simultaneamente, o facto de Catherine ser o primeiro jogo nesta geração desta equipa alimentou de sobremaneira as altas expectativas em relação ao mesmo.

Será que Catherine é uma boa entrada no portfólio da equipa de Persona e se assume como uma mais-valia para um dos géneros menos povoados da indústria?

Para responder a esta questão é necessário atender à temática de Catherine, que, como já referi, não poderia estar mais longe do cariz sexual a que foi associado. Catherine vai mais longe e debruça-se sobre o lado mais profundo das relações amorosas: as pessoas. Mesmo que não tenha sexualidade envolvida o jogo mantém uma “personalidade” adulta e madura.

O protagonista é Vincent Brooks, um homem simples que, entre encontros no bar habitual com os amigos e a sua namorada de sempre Katherine, leva uma vida normal, desprovida da excitação e espontaneidade que seria de esperar. Para além disso, a insegurança assola-o visto que Katherine mostra desejos de consumar a relação através do matrimónio. É nesta altura que uma série de misteriosas mortes começa a ocorrer na região e, coincidência ou não, todas as vítimas são da mesma faixa etária de Vincent, que começou a ter estranhos pesadelos, a causa das mortes apontadas por estranhos rumores. Estes rumores referem também que todas as vítimas morreram durante o sono, o que apenas ajuda a ser um caso mais mediatizado pelas televisões. É nesta fase da vida de Vincent que surge a bela e jovem Catherine, uma lufada de ar fresco na vida rotineira do protagonista e com a qual acorda numa manhã depois de travarem conhecimento no bar Stray Sheep (o bar onde Vincent e os amigos se reúnem todas as noites), estando os dois já embriagados. Depois deste momento a vida de Vincent complica-se ainda mais, pois, mesmo que se sinta impelido a terminar esta relação, há outra parte de si que é atraída pela sensualidade, espontaneidade e independência de Catherine. A partir deste ponto os pesadelos de Vincent intensificam-se ainda mais e torna-se cada vez mais clara a influência dos problemas pessoais de Vincent.

A narrativa de Catherine estende-se ao longo de uma semana, um espaço temporal em que, nos pesadelos de Vincent, o jogador irá subir a uma torre de forma a ser libertado desses pesadelos. Isto de acordo com o que lhe foi prometido por uma misteriosa voz.

No que diz respeito à história, uma das características mais importantes de Catherine é mesmo o facto de o jogador poder tomar decisões. Estas decisões são tomadas não só em conversa com outras personagens mas também em transição entre diferentes níveis dos pisos da torre nos pesadelos de Vincent, acabando por contribuir para um medidor de moral. Este medidor irá definir o final da história de Catherine e com qual das mulheres irá Vincent ficar.

Mas há uma questão que ainda se mantém. Como se joga afinal a Catherine? Mesmo que o estilo de jogo tenha mudado, a Atlus mantem-se fiel a si mesma e é possível encontrar uma estrutura muito próxima da que se encontra em jogos da série Persona.

O jogo encontra-se dividido intervaladamente em duas fases. A primeira é passada nos pesadelos de Vincent e ocupa grande parte do jogo. Nestes pesadelos Vincent encontra-se no sopé de uma enorme torre feita por cubos onde o único papel do jogador é de chegar ao topo o mais rápido possível. O jogador terá então de puxar e empurrar cubos atendendo às suas diferentes propriedades e tanto é possível encontrar cubos normais como cubos armadilhados (onde o primeiro toque acciona espigões), bombas (que tornam os cubos circundantes mais frágeis), de gelo (dois passos são o suficiente para o jogador deslizar para a morte) e até com buracos negros (que sugam Vincent caso este pise em cima deles). A variedade de blocos em cada nível vai aumentando durante o decorrer do jogo, sendo necessária grande atenção por parte do jogador se não este não quiser ver ecrãs de “Love is Over” (”Game Over”) mais do que é necessário.

Ao longo da torre estão também disponíveis diversos itens para ajudar na subida. Estes itens encontram-se sob as formas de almofadas (cada uma oferece dois “continues”, usados para, depois de morrer, continuar a partir de um checkpoint no nível), livros (para eliminar os inimigos mais próximos), sinos (que transformam todos os cubos em cubos normais), entre outros, sempre com propósitos de grande utilidade.

Como já referi o jogo é passado numa semana e, por noite, Vincent irá subir um piso na torre. Por cada piso existem pelo menos três patamares para ultrapassar mas que não se pense que é preciso fazer tudo de uma vez. Entre cada patamar o jogador acede a uma divisão onde é possível ver que Vincent não está sozinho nestes desafios. Existem mais indivíduos (humanos com a forma de carneiros) que lutam pela sua sobrevivência e é possível ao jogador ignorá-los ou encetar conversas. Também é possível trocar conselhos sobre a forma de subir as torres, facilitando assim a tarefa e melhorando a imagem de Vincent junto dos seus companheiros.

Não que se consiga evitar ver Vincent morrer, porque, acreditem, se jogarem Catherine é algo que irão ver muitas vezes. Os puzzles são, por vezes, difíceis de perceber e só após algumas tentativas falhadas é possível discernir qual o caminho certo a tomar. Para além disso não são raras as vezes que se encontram obstáculos durante a subida. Existem inimigos (carneiros de maior porte) com a função de nos empurrar para o abismo e que podem, em certos casos, tornar-se autênticas dores de cabeça. Para ajudar, o jogador tem à disposição a possibilidade de regredir algumas jogadas de forma remediar algum erro que possa ter feito. Esta mecânica, que não vinha de origem na versão japonesa do jogo, é extremamente útil pois evita que a dificuldade passe de saudável para frustrante uma vez que é muito difícil não cometer erros quando se está numa torre com dezenas de cubos, grande parte podendo ser puxados/empurrados na altura errada.

Há que referir também que o jogo tem algumas falhas no que diz respeito à câmara e controlos. Seria de esperar que não fosse um problema e a verdade é que não costuma ser notado mas por vezes, quando é necessário que Vincent se posicione na parte de trás da “torre”, torna-se impossível ver a sua localização e não ajuda o facto de, nestas situações, os controlos ficarem confusos e pouco intuitivos. Não são situações recorrentes mas, quando acontecem, tornam-se frustrantes. Mesmo assim estes problemas não mancham o sentimento de recompensa de chegar ao fim de um nível, onde é apurada uma pontuação de forma que o jogador participe em rankings online.

No que diz respeito à segunda fase do jogo há que dizer que não poderia ser mais diferente da primeira. Esta é muito mais calma mas não menos importante. Estas fases decorrem no bar Stray Sheep (antes de Vincent se dirigir para casa para pernoitar) onde o jogador tem a oportunidade de explorar a narrativa falando com outras personagens. Em conversa com os clientes do bar (é possível ver algumas “caras” conhecidas e recomenda-se que não sejam ignoradas) o jogador fica a conhecer as suas histórias, personalidades e, sobretudo, a forma como estão a encarar o clima de incerteza que se vive devido à série de misteriosas mortes. Mas este factor de socialização é alargado também aos interesses amorosos de Vincent, sendo possível trocar SMS com Katherine e Catherine e até, recorrendo também ao telemóvel, repetir os diferentes pisos da torre para melhorar as pontuações. Para além disto está disponível uma máquina de arcada com um jogo onde, no papel de um príncipe, o jogador tem de subir à torre da Rapunzel com as mesmas mecânicas de manuseamento de cubos. Este mini-jogo tem uma história própria acabando por tornar-se uma agradável distracção em relação à narrativa principal e faz valer o investimento de tempo pelo treino para as escaladas nocturnas.

No departamento gráfico Catherine acaba por não impressionar. O motor in-game é algo simplista e, mesmo que não cause constrangimento (trata-se de um jogo bastante polido), as texturas e animações raramente se afastam do básico. Felizmente o mesmo não se pode dizer da palete de cores (bastante colorida e variada) e das cutscenes apresentadas em animação japonesa à boa moda da equipa de Persona. Mesmo que raras, estas sequências são de grande qualidade ou não fossem feitas pelo Studio 4º C, responsáveis pela animação de jogos como Rogue Galaxy e filmes como Tekkon Kinkreet e The Animatrix.

Grande destaque também para a banda sonora e dobragem do jogo. Composta por Shoji Meguro (compositor da série Persona) a banda sonora de Catherine é constituída por músicas bem ritmadas de um J-Pop que consegue ficar facilmente no ouvido. Já a qualidade da dobragem não se faz notar tanto como a banda sonora mas, mesmo assim, encontra-se muito acima da grande parte dos jogos nipónicos com dobragem nos E.U.A. sendo que aqui os actores conferem uma boa dose de dramatismo condizente com a acção.

O modo principal de Catherine dura cerca de treze horas mas, uma vez terminado, o jogador tem acesso a modos multiplayer local onde dois jogadores competem para chegar mais rapidamente ao cimo de uma torre. Para além destes modos a repetição de níveis da campanha para competir nas Leaderboards também pode ajudar a estender a longevidade do jogo mas quem não se interessar por este tipo de modos irá ficar limitado apenas à campanha e apostar em múltiplos playthroughs, recomendado para ver todos os finais.

Existem também pormenores dignos de destaque, que, mesmo que não contem para a história, enriquecem a experiência e aguçam o interesse do jogador. Entre cameos de outras personagens da Atlus é possível ter acesso a pequenas curiosidades acerca das bebidas (sobre a sua criação, por exemplo) que se ingerem no Stray Sheep, sendo que, quanto mais se ingerir, mais rápido fica Vincent nos seus pesadelos. Outro pormenor interessante de Catherine tem a ver com as perguntas feitas a Vincent no decorrer do jogo. Ao responder a algumas delas (feitas na transição entre níveis dos pisos da torre) é possível ver momentos depois um gráfico circular que mostra as respostas dadas por outros jogadores de Catherine, o que ajuda ao sentimento que Vincent não está sozinho a subir a torre.

Para além disto não consegui deixar de pensar que estas perguntas, quando respondidas honestamente, são um bom instrumento introspectivo do jogador dado o cariz pessoal das perguntas e do facto de, possivelmente, o jogador nunca ter pensado acerca de certas questões. A ajudar está também o facto de o jogo ter múltiplos finais que se adequam às respostas dadas neste tipo de perguntas

Posto isto, o que dizer mais de Catherine que já não tenha sido dito? A equipa de produção foi bem-sucedida ao oferecer um jogo de puzzles equilibrado, frenético, gratificante e desafiante ao mesmo tempo que conferiu grande profundidade ao jogo, tornando-o algo de único e que dificilmente se encontrará num futuro próximo no mercado. Não foi algo fácil de conseguir da mesma maneira que não será fácil apagar a fama de Catherine e conseguir boas vendas quando o jogo for lançado na Europa, no final de Outubro. Todavia, se gostam de jogos de puzzles diferentes, com uma história de mistério bem contada, com uma temática adulta e se não se interessam pelos jogos que, ano após ano, teimam em aparecer nesta época, então Catherine é um jogo mais que recomendado e que decerto não irá dar pesadelos aos seus possuidores.

+ História cativante
+ Múltiplos finais de acordo com decisões morais
+ Puzzles bem pensados
+ Jogabilidade frenética e desafiante
+ Sequências em anime bem conseguidas

– Gráficos in-game pouco impressionantes
– Alguns problemas de câmara e controlos

Gráficos: 84
Jogabilidade: 90
Som: 92
Longevidade: 87
Pormenores: 95

Nota Final: 90

UPDATE: Até ao momento o jogo não tem data de lançamento no território Europeu.

(Podem ainda ler esta análise no portal MyGames)

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2 responses

20 09 2011
ChadGrey

Uma das análises mais detalhadas que já li na língua portuguesa.
Nada foi deixado ao acaso. Parabéns e sorte a tua por já teres jogado o jogo!

4 12 2012
G.B

Concordo ^^

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