A derrota nos jogos de luta

Gosto de pensar que sempre fui um jogador muito completo. Alguém capaz de jogar a vários géneros e razoavelmente bom em praticamente todos. Admito que já houve uma altura em que julgava que isto era verdade e era pretensioso a este ponto mas, neste momento, não me posso continuar a enganar.

Cada vez mais, à medida que os anos vão passando, dou por mim a cingir-me a géneros específicos que vão de encontro à minha personalidade. Continuo a gostar de jogos de acção (de preferência o mais frenéticos possível), continuo a apreciar um bom jogo de puzzles e também a divertir-me com o jogo de plataformas da praxe. Perdi um pouco a paciência para jogos de estratégia que avançam a ritmo de caracol, RPG’s a que tivesse de me dedicar horas a fio e sobretudo a jogos que exalem banalidade e falta de ambição. Todavia, quando deixamos de nos concentrar em várias coisas, acabamos por focar-nos nas mais significativas e, quem sabe, acabamos por voltar a certas coisas que outrora nos disseram alguma coisa.

Existe um género que ora me interessa, ora me passa ao lado. O género de jogos de luta não tem reunido consenso na minha pessoa. Talvez isso se deva ao facto de haver certas “modas” na indústria no que toca a géneros (sempre houve e sempre vai haver) e os jogos de luta não terem feito parte da “elite” mas penso que, por muito que seja verdade, não devo ir por aí. Penso que o fascínio relativamente aos jogos de luta ganha-se com uma maior maturidade e experiência. Não quero com isto dizer que quem não gosta de jogos de luta é imaturo ou não sabe jogar. Nada disso. No entanto, penso que, quando se joga a um bom jogo de luta, temos de estar preparados para perder. E muito.

Todos os géneros exigem que nos aproximemos deles com uma certa disposição. Podemos “perder” em quase todos mas não é invulgar haver situações em que desistamos deles, sobretudo tratando-se de jogos inerentemente competitivos. Se existem pessoas que jogam tão melhor que nós, porque havemos de continuar a jogar? Para perder? Sim.

Quando se jogam a jogos tão competitivos como jogos de luta temos de estar preparados para perder e, quando perdemos, temos sempre de saber retirar algo daí. Saber o que falhou, o que podemos fazer para o evitar e que estratégias que podemos empregar tendo em conta o tipo de jogador que temos como opositor são aspectos essenciais quando perdemos num jogo de luta. Perseverança é essencial.

Não se trata também de uma simples questão de saber perder ou ganhar. Trata-se de encarar a derrota como uma motivação para sermos melhores e aplicar o nosso treino individual.

Esta minha forma de ver os jogos de luta é algo que ganhei com a maior aproximação ao género, algo que teve início com o lançamento de Street Fighter IV em 2009. Pessoalmente considero que este é o jogo responsável pela revitalização do género na geração actual pois foi a partir daqui os jogadores passaram a estar muito mais abertos a jogos de luta. Eu, que não jogava a Street Fighter há mais de 10 anos (Street Fighter II foi o primeiro joguei de luta que joguei), acabei por ficar rendido à qualidade do quarto capítulo (numerado, note-se) da franchise da Capcom. Todos os aficionados de jogos de luta têm ainda de agradecer à Capcom pois foi graças a Street Fighter IV que jogos (de séries há muito ausentes) como Marvel vs Capcom 3 e Mortal Kombat viram a luz do dia.

Se SFIV foi responsável pelo reacender do meu fascínio pelo género tenho de referir que foi MvsC3 que o intensificou. Não é uma questão de qualidade pois considero que todos os bons jogos de luta no mercado são diferentes entre si e se adequam mais a certo tipo de jogadores. O estilo de jogo rápido, frenético e simples (sem no entanto sacrificar a profundidade) de MvsC3 não tem nada a ver com o carácter mais técnico e “pesado” de SFIV sendo que, para além disso, MvsC3 tem o factor de imprevisibilidade que torna tão diferente de outros jogos. Em MvsC3 qualquer erro cometido por nós ou pelo adversário pode voltar-se contra nós e ter sérias consequências no decorrer do jogo. Mesmo que um jogador seja melhor que o outro as falhas que possa cometer podem-se voltar contra ele ditar o fim do combate. MvsC3 exige que, a cada combate, os jogadores estejam de cabeça fria e no topo da sua forma.

Se estas são as características que fizeram de MvsC3 um dos grandes jogos do género o que é que me fez apreciá-lo mais do que outros?

Para começar o leque de personagens. Como dizer que não a um jogo com algumas das personagens de jogos que mais gosto? Não é por acaso que o meu trio de lutadores em UMvsC3 é composto por Dante, Vergil (os dois de Devil May Cry 3) e Amaterasu (de Okami).Para além disso confesso que, em MvsC3 e UMvsC3, tive sempre a companhia de um amigo, praticamente a única pessoa com quem jogo multiplayer local e que mais me ajudou a melhorar a forma como jogo. Tenho a certeza que, se não fosse por ele, não teria melhorado tanto.

Comecei a jogar MvsC3 quando o jogo foi lançado a Fevereiro de 2011 e confesso que, no início, as derrotas foram imensas. Até ao lançamento de UMvsC3 sempre que joguei contra este meu parceiro perdi sem, no entanto, desanimar. Se não jogasse contra outra pessoa em multiplayer não sei se teria continuado mas foi precisamente por ter um parceiro que jogava e que tinha paciência para “ensinar” um noob como eu que fiquei melhor. Posso dizer com algum orgulho que, após quase dois anos, sou suficientemente bom para não levar grandes rapes e, pontualmente, até lhe ganhar alguns combates. Parece pouco? Não se tiverem em conta que tenho mais coisas para jogar e, sobretudo, para além de jogar. Sei que provavelmente nunca serei um jogador top mas também sei que, se me dedicasse a fundo, me tornaria muito melhor do que sou.

Tudo isto leva-me a pensar no motivo porque é que o Ryu (o protagonista de Street Fighter) é uma personagem que automaticamente associamos a jogos de luta. Para além de pertencer a uma das franchises mais antigas do género, Ryu é uma personagem que personifica o estilo de jogador de um jogo de luta. Só através de treino e de combates com jogadores melhores que nós é possível ser o melhor e é isso que faz de Ryu uma personagem tão única. Entre todas as personagens de Street Fighter ele é dos poucos (se não o único) que se alheia de todas as tramas e se preocupa unicamente em treinar mais e ser o melhor.

Pode ser muito nerd ver as coisas desta maneira mas acho que este é o motivo de o Ryu ser uma personagem tão icónica dentro do género e dentro da indústria. Mas, mais do que isto, acho que se deve deixar de ver a derrota como algo mau mas sim que faz parte. Não deve ser um factor desmotivador mas sim exactamente o contrário. Foi isto que pretendi com este artigo e espero que mude a ideia que muita gente tem relativamente aos jogos de luta e que acabe por trazer mais aficionados ao género.

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