De 80 a 8

Apesar de já anteriormente ter tido contacto com o mundo dos videojogos, foi com a minha primeira consola, uma Sega Saturn, que passei a ser um jogador mais activo. Foi também com Tomb Raider, que vinha num bundle, que tive o primeiro contacto com um jogo com a componente de aventura tão demarcada. Apesar de ter ficado satisfeito (e até orgulhoso) desta minha escolha, confesso que pensei (como ainda hoje penso) que pode não ter sido a melhor.

Tomb Raider é, para mim, um dos pais dos jogos de aventura. O constante sentimento de solidão e os cenários selvagens e desabitados faziam-me recear que pudesse terminar a minha aventura à mercê da mais variada fauna (onde nem faltava espécies extintas). Para além disto, os puzzles e os cenários certificavam-se que tinha de explorar adequadamente cada recanto, o que exigia paciência e alguma dedicação. Isto sem contar com os puzzles, impiedosos e intrincados e que exigiam a já referida exploração exaustiva do cenário.

Dada a sua dificuldade, Tomb Raider pode não ter sido a escolha mais acertada para uma criança de 9 anos, mas, de certa forma, creio que ajudou a definir-me enquanto jogador, pelo que, desde que me lembro, nunca deixei de jogar um jogo tendo simplesmente em conta a sua dificuldade, visto que me agrada que haja uma boa dose de desafio envolvida.

Partindo de jogos com géneros em que me sinto mais à vontade (como Devil May Cry e Bayonetta) até para fora da minha zona de conforto (com RPG’s japoneses), sempre me esforcei para me desafiar constantemente e é com alguma pena que vejo que a vertente de desafio está a desaparecer da indústria dos videojogos. O exemplo que melhor me salta à memória tem a ver com Super Mario, uma franchise que sempre gostei de jogar mas que, para o bem e para o mal, está cada vez mais acessível. Depois de anos a jogar Super Mario’s num plano 3D decidi regressar ao passado e recomeçar a jogar Super Mario World, que me relembrou da dificuldade dos antigos jogos da série. Podem dizer que isto se prende com o facto de ser num plano 2D mas, por outro lado, New Super Mario Bros. Wii também o é e acaba por ter muito menos dificuldade envolvida (muito devido à direcção mais familiar para a qual a Nintendo tem apontado).

Resident Evil foi outra série que mudou ao longo dos tempos. Confesso que, apesar de lhe reconhecer o mérito, nunca dei especial atenção à franchise da Capcom sendo que apenas comecei a jogar a partir de Resident Evil 4. Este foi o grande ponto de viragem na série Resident Evil e, por muito que guarde boas memórias dele, considero-o quase uma perversão do legado da série. Por muito que continuem a defender a sua qualidade (que se mantém, até aos dias de hoje, indiscutível) a verdade é que é incrivelmente mais fácil que os seus antecessores. Após ter tido um contacto com Resident Evil 0 as diferenças entre os dois são óbvias, uma vez que não se trata simplesmente do nível de dificuldade mas sim de uma forma inteiramente nova de o jogar, sendo o quarto capítulo muito mais direccionado para a acção e menos para a resolução de puzzles e gestão dos recursos à disposição.

Estes são apenas exemplos entre muitos em como os jogos estão mais acessíveis e de como já não se exige aos jogadores os mesmos reflexos e a mesma dose de paciência e tolerância. Podem dizer que se pode ajustar o nível de dificuldade (e realmente pode-se) mas o nível dito como “Normal” é, hoje em dia, uma sombra do que foi outrora, sem falar ainda quando, no decorrer de um jogo, o caminho e soluções de puzzles são mostrados assim como as plataformas se “iluminam” miraculosamente.

Do outro lado da barricada temos jogos como Demon’s Souls e até Super Meat Boy que, sejamos honestos, não estão propriamente ao alcance dos mais inexperientes ou impacientes. Apesar disto, são jogos que considero absolutamente marcantes no actual panorama da indústria dos videojogos e que, são exemplos pelos quais os produtores fãs de experiências mais “hardcore” se devem guiar de forma a satisfazer outro tipo de público.

Por muito que não goste destas decisões a verdade é que não são, de todo, difíceis de compreender. Com cada vez mais pessoas (tanto camadas jovens como mais adultas) a começarem a jogar é natural que as produtoras queiram alargar o seu público-alvo, oferecendo experiências que podem ser desfrutadas por toda a gente.

Neste sentido o melhor exemplo que julgo encontrar é Uncharted, que, para muitos, tomou o lugar de Tomb Raider como a referência no que toca a um jogo de aventura. Na minha opinião esta ocorrência era já esperada visto que as aventuras de Lara Croft têm vindo, ao longo dos anos, a perder o impacto e a personalidade jovial de Nathan Drake (juntamente com o carácter cinemático dos seus jogos) rapidamente agregou uma boa quantidade de fãs.

Com o reboot de Tomb Raider em produção e como apreciador da série que sou, espero que esta mítica franchise volte à antiga forma. Pelo que tenho visto até agora acerca do jogo a Crystal Dynamics parece estar a aprofundar a forma como se joga a um Tomb Raider ao incluir a vertente de sobrevivência que promete levar Lara aos seus limites. Por muito bonito que isto possa parecer no papel a verdade é que muitos outros produtores já disseram o mesmo acerca dos seus jogos e isso raramente se verificou. O meu receio é unicamente este: terão os produtores “coragem” de voltar a direccionar a série para uma jogabilidade mais “hardcore” dado o sucesso de jogos mais acessíveis como Uncharted?

Obviamente não tenho uma resposta para isto mas espero que a Crystal Dynamics consiga oferecer um jogo com grande qualidade e restabelecer a série Tomb Raider à antiga glória que lhe era reconhecida.

I’ll be Quack!

Podem ler esta rubrica no portal MyGames.

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