É p’ro menino e p’ra menina!

Todos nós gostamos de videojogos. É o nosso hobby de eleição e é isso que nos une aqui. Todos temos também grandes serões de “jogatanas” entre amigos que, no geral, esses grupos carecem de elementos femininos. Decerto que já todos nos perguntamos o porquê de, enquanto jogadores, o público masculino ser mais abrangente e decerto que muitos jogadores pensam que, simplesmente, as mulheres têm interesses e gostos diferentes e (por muito plausível que estas razões sejam), não me parece de todo adequado fazer essa generalização.

Os videojogos sempre foram vistos como algo indicado para crianças ou para um grupo mais jovem, nomeadamente rapazes na casa dos 8 aos 20 anos. O facto de ser entendido como algo imaturo e apenas indicado para rapazes é motivo suficiente para manter muitas raparigas afastadas mas, visto que actualmente existem mais géneros do que nunca, porque continuam os videojogos sob este estigma? A verdade é que, por muito que queiram fazer parecer, os jogos não mudaram assim tanto. Sim, hoje em dia existem diversos jogos para consolas portáteis e até para sensores de movimentos, mas os grandes hits continuam a ser os mesmos desde há muitos anos. Falo obviamente de jogos de guerra e de acção como Call of Duty’s, Gears of War’s, Battlefield’s, God of War’s e por aí em diante. Não importa de que forma peguemos nestas grandes franchises pois acabamos sempre por nos deparar com personagens “machonas” num clima de guerra e violência, o que, apesar de conseguir cobrir uma grande fatia dos jogadores actuais, não é uma fórmula vencedora para agradar a outro tipo de público. Sejamos sinceros, um jogo em que a única tarefa de quem joga é abrir caminho do início ao fim matando tudo o que aparece à frente pode ser maçador até para os jogadores mais experientes, quanto mais para uma rapariga.

“Mas existem outros géneros de jogos para além desses!” dizem vocês com razão mas, por outro lado temos outro tipo de jogos que também não são indicados para mulheres. Se por um lado há jogos que rejeitam o papel da mulher por completo existem outros que pecam pela atenção, em especial a certas partes do corpo feminino. Jogos como Soul Calibur e Dead or Alive são óptimos exemplos da exploração da sexualidade do corpo feminino e, como é claro, estes são tipos de jogos que também não são atractivos a mulheres. Desta maneira mais oportunidades são perdidas para agradar a um possível público feminino.

Estas decisões de conteúdo são, claro, planeadas, uma vez que os produtores têm de estabelecer um público-alvo de maneira a saber o que incluir ou não no jogo e, não me interpretem mal, mas acho que isto faz sentido mas será que, por vezes, as produtoras não podiam ter um pouco mais de visão e fazer jogos sem este tipo de fronteiras? Digam o que disserem dos jogos da Nintendo a verdade é que estes desde sempre o fizeram e, até agora, têm-se safado bastante bem.

De que forma, podem então, os produtores aliciar as mulheres a jogarem? Uma solução passa pela exploração da narrativa e da emotividade nos jogos. A verdade é que a inclusão de sexo (completamente desnecessária quanto a mim) em jogos como Dragon Age e Mass Effect não ajuda à situação, sendo sim preferível uma maior intimidade emocional como acontece, por exemplo, em ICO na relação entre Ico e Yorda. Outra solução está na forma como são criadas as personagens femininas. Em vez de simplesmente apelar a atributos físicos, os produtores devem focar-se sobretudo nas qualidades psicológicas, essas sim capazes de fazer ícones. Como exemplos destas personagens aponto Alyx Vance (Half-Life 2), Samus Aran (Metroid), Lightning (Final Fantasy XIII) e GLaDOS (Portal), que, mesmo tratando-se de uma IA, reúne tudo o que é necessário para criar uma personagem memorável. Contudo, apesar dos esforços em conceber uma boa personagem feminina, esta pode acabar por ser deturpada nas mãos erradas. Falo de uma das mulheres mais conhecidas da indústria dos videojogos: a mítica Lara Croft. Mesmo que tenha sido pensada como uma mulher forte, independente, inteligente e sexy, esta última qualidade parece a única que acaba por ficar na mente dos jogadores. Este foi, sem dúvida, o ponto de partida para a sexualização das personagens femininas e que, infelizmente, se mantém até hoje. Apesar disto nem tudo parece estar perdido para Miss Croft. O iminente reboot está a ser feito tendo em vista a maior profundidade psicológica e emocional da personagem, o que, se tudo correr bem, deverá fazer muitos jogadores olharem para Lara Croft de maneira diferente.

Estas soluções não são difíceis de pôr em prática mas, a meu ver, não são adoptadas devido à actual preguiça de muitas produtoras. A verdade é que, por muitos space marines ou soldados de operações especiais que apareçam, estes nunca irão conseguir despertar interesse em outro tipo de público que não aquele que já conquistaram.

Os videojogos podem ter evoluído muito tecnicamente mas, salvo algumas excepções, continuam estagnados naquilo que têm sido até aqui: uma indústria jovem, imatura, sem experiência e ainda com muito por onde melhorar. Há que começar a ver mais além e começar a representar a força das mulheres de hoje em dia e mostrar, definitivamente, que os videojogos são realmente para pessoas de diferentes sexos, idades e raças.

I’ll be Quack!

Podem ler esta rubrica no portal MyGames.

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